Current Date:abril 20, 2024

OFF ENTREVISTA: Lupa fala sobre o single “Vai Doer”, apresentação no Rock in Rio, política e relação com os fãs

A Lupa segue espalhando amor pelos quatro cantos do Brasil. Depois de um show energético no Rock in Rio, a banda de Brasília composta por Múcio Botelho (vocal e guitarra), João Pires (bateria), Lucas Moya (baixo), Victor Cavalcanti (guitarra) e André Pires (teclado) agora está focada em aproveitar todas as oportunidades reveladas a partir de sua apresentação no maior festival de música do mundo.

Em setembro conversamos com o vocalista do grupo sobre os preparativos para o RIR, trajetória e planos para o futuro (para conferir clique aqui). E recentemente, batemos novamente um papo com o vocalista da Lupa, Múcio, acerca de novos temas como o mais recente single do quinteto, Vai Doer, arte, política, fãs e novo álbum. Confira!


OFF: Na última vez que conversamos, vocês estavam se preparando para tocar no Rock in Rio. Como foi tocar no maior festival de música do mundo?

Múcio Botelho: Foi a coisa mais surreal da minha existência! Choramos! O negócio é imenso! Eu não consigo nem mensurar o tamanho que é aquilo. Chegamos lá de manhãzinha, nos preparamos, passamos o som, o palco estava lindo. A gente ia ser a primeira banda a tocar na quinta-feira, íamos abrir o show. Quando estávamos lá atrás do palco na hora da apresentação, nos reunimos como sempre em uma roda para falar umas coisinhas antes de tocar, e nessa hora eu sai da rodinha para espiar a visão do palco, só para saber como estava o pessoal, quando olhei para frente vi um mar de gente com a camisa da Lupa. Foram fãs do Brasil inteiro! Eu pensei “meu Deus do céu! Deu certo! P*ta que pariu!”, e voltei para lá chorando (risos). Dali para frente foi só sucesso! Deu tudo certo, foi um dos shows mais incríveis da nossa vida. Estava um sol filho da p*ta, 50 graus, não tinha uma vírgula de sombra e o povo estava lá vermelho, suando, pulando, gritando como se não houvesse amanhã. Então, não poderia ter dado mais certo!

OFF: E como esse show no Rock in Rio teve impacto na carreira de vocês? O que mudou em suas vidas?

MB: Teve um impacto imenso! Primeiro de tudo como gente, como menino e pelo tempo que estamos correndo atrás disso. Ter tocado lá foi a realização de um sonho, é a prova de que estamos trabalhando do jeito certo, que não temos muito que pensar. É só fechar os olhos e fazer as coisas com o coração que as pessoas se identificam, e vamos continuar pensando assim. Muitas portas novas se abriram, você não tem noção do tanto de coisa que apareceu agora. Nós estamos pela primeira vez na vida entrando em programação de rádios imensas do país, nunca tínhamos conseguido ter acesso à isso, nunca tínhamos chamado essa atenção e agora estamos. É inacreditável! A gente está sendo chamado para programas de televisão, vamos fechar alguns festivais interessantes até a virada de ano. Estamos animados, dá um gás imenso para fazer isso aqui!

OFF: Na última entrevista, você comentou um pouquinho sobre o novo single, Vai Doer, que foi lançado agora. Como essa faixa foi criada? O que vocês queriam transmitir com ela?

MB: Essa música surgiu de uma forma muito engraçada. Eu estava sentado junto com o João mostrando umas ideias novas e nós começamos a conversar sobre todo mundo que a gente achava incrível. Notamos que a maioria dessa galera tinha simplesmente morrido de imprevisto, de repente, teve um p*ta de um troço e caiu duro, muitas fatalidades. Então eu disse João, e se a gente seguisse nessa ideia? Porque quem garante que quando eu sair daqui, eu não vou morrer? Quem sabe o que a gente tem pela frente? Por que nós temos medo de fazer as coisas?”, e assim nasceu o tema para criar a letra. O clipe dessa faixa também foi muito doido, no comecinho dele tem uma frase do nosso avô, ele sempre dizia que “essa vida é uma palhaçada ai de quem leve ela a sério” e ela casou perfeitamente com o que nós estávamos falando, que era basicamente “por que a gente está tentando impressionar? Estamos fazendo planos para quem? Para nós mesmos ou para os outros? Quem queremos convencer? Precisamos convencer alguém? Há necessidade de fazer isso? Que burrada! Por que não estamos fazendo tudo o que queremos?”, a proposta do videoclipe veio disso. A gente simplesmente pensou assim “por que as bandas têm que ser levadas à sério? Por que temos que fazer isso? Somos importantes? Nós estamos representando alguma coisa maior do que nós mesmos?”, então pegamos as coisas mais aleatórias que podíamos imaginar e chegamos à conclusão que não precisava fazer sentido já que a vida não faz também, e assim foi planejado o videoclipe. Foi  muito engraçado de filmar! Foi uma logística bizarra, pois tem muito material diferente. Nós gastamos duas horas com maquiagem e produzindo tudo para isso ter cinco segundos dentro do vídeo. Foi uma doideira! Tivemos que lidar com cacatuas, com flores, com muitos elementos distintos, estávamos atirando para todos os lados. Porém foi um dos clipes mais legais de gravar. Hoje ele é o meu preferido, ele está lindo visualmente, as cores ficaram muito bonitas. E eu, particularmente, realizei o sonho de conhecer as cacatuas (risos), de me vestir com um casaco felpudo e é para isso que estou aqui, é para isso que eu estou vivendo.

 OFF: Com certeza uma das coisas que chama atenção no vídeo de Vai Doer é a crítica sutil ao atual governo. Ficou muito bacana!

MB: (risos) Ficou lindo né? É um burro todo quadrado com as cores do Brasil e o número do glorioso animal que hoje ocupa aquela cadeira, é literalmente isso. Nós também temos essa ideia de levar tão a sério as coisas, de pensar que na cabeça dessas pessoas isso importa, porém vemos que na verdade não, elas não se importam. Então do mesmo jeito que nós podemos não nos levar a sério, a chave para virar essa situação está na nossa mão, de mostrar e fazer compreenderem que a gente também não leva elas a sério.

OFF: Baseado nisso, vocês acham importante esse posicionamento político como banda? Na última eleição percebemos que vários artistas se manifestaram de livre e espontânea vontade, mas outros quando “cobrados” pelo público fizeram a linha mais ‘isentona’, se esquivaram do assunto. Vocês acham necessário falar “nisso eu acredito”, “sou contra isso”?

MB: Acredito que não tem como você fazer arte e não fazer política junto, ponto. Se você olhar o meu Instagram, eu Múcio, vai ver que durante a campanha, que também foi quando estávamos fazendo os nossos maiores shows, a minha vida era dividida basicamente entre organizar as coisas da Lupa, estar em cima do palco e estar na rodoviária conversando com todo mundo das 8h da manhã às 8h da noite para tentar virar voto e conscientizar as pessoas. A Lupa desde o começo bate o pé muito firme nessas questões, nunca foi uma coisa “ah precisamos falar sobre isso”, é algo que sempre veio muito natural. O tópico da sexualidade também é muito importante para a gente, ainda mais atualmente. O nosso público em geral é bem novo, uma galera entre 15 e 28 anos, é um pessoal que está se descobrindo sexualmente, identificando o que lhe dá tesão, quem são. E eles não têm segurança em casa, no trabalho, na escola, então ver que conseguimos construir um ambiente — existem vários grupos com fãs do Brasil inteiro — que unimos uma galera que é cabeça aberta, que tem amor por tudo, pois Lupa é amor. Criamos um espaço de segurança pelo menos para o nosso público, no qual os fãs se sentem em casa, têm liberdade para dizer o que são, o que esperam, contar os problemas da vida, eles formaram uma rede de conforto imensa. Portanto, o que nós fazemos é mais do que música, honestamente, isso aqui é política. Eu sou formado em Direito pela UnB – Universidade de Brasília, trabalho no legislativo e a cada dia percebo que essas coisas caminham de mãos dadas, não tem como separar e é bom que isso não seja possível, pois o jeito mais eficiente do mundo é ver as coisas por meio da música. Nós fazemos esse trabalho do um a um, de expandir o nosso alcance, atingir outros lugares com gente que interage entre si. Isso é a maior surpresa que a Lupa proporcionou, pois não era o nosso objetivo, veio naturalmente e acolhemos de braços completamente abertos, é a coisa mais importante dessa vida!  

OFF: E por falar em fãs, foram eles que contribuíram no financiamento coletivo para a gravação do primeiro álbum da Lupa, o Lupercália. Como foi a produção desse disco e o que ele significou para vocês?

MB: O crowdfunding foi a prova de tudo isso que comentei. Nós batemos o recorde de arrecadação no Centro-Oeste de bandas independentes. A Lupa tinha só dois anos de vida, não tínhamos nada mesmo e arrecadamos mais de 150% da meta inicial, foi uma loucura! O mais massa do financiamento coletivo é que você consegue ver a carinha da pessoa, o lugar de onde ela está doando. Nós imaginávamos que tínhamos fãs espalhados por aí, porém um aqui e outro ali, mas quando vimos tinha gente do país inteiro, Acre, Amazonas, Maranhão, Ceará, Minas, Rio, São Paulo e foi tipo “meu Deus do céu! Como isso aconteceu?”, nós nunca tínhamos saído de Brasília, a primeira vez que saímos daqui foi um ano após o Lupercália. Portanto, isso foi um susto imenso e deu o maior gás do mundo, pois ficamos três anos fazendo o maior esforço para tentar marcar shows pelo Brasil e quando marcarmos, ferrou-se! Tinha um pessoal que por quatro anos estava esperando nos ver. Todos os lugares que fomos do país sempre teve público, sempre foram shows legais e cheios, acho que só uns dois shows da história da Lupa que foram poucas pessoas, fora isso, em todos os buracos do Brasil que tocamos foi sucesso absoluto, com gente que ama, faz e acontece. Esse foi o nosso primeiro CD da vida, não é como se tivéssemos tido outras bandas e lançado outros produtos, foi a primeira vez, então ele é um retrato de um Múcio de 17 a 22 anos completamente apaixonado escrevendo canções. É algo que eu já tenho guardado para sempre, vou esfregar na cara do meu filho um dia, fazer passar vergonha (risos).  É um tesourinho para nós e foi o que abriu as portas do Brasil para a Lupa. Nós acabamos viajando o Brasil inteiro por causa dele, tocando em todos os festivais que sonhávamos e até no Rock in Rio, cacete! Até isso a gente conseguiu fazer!

OFF: Agora vocês lançaram Vai Doer, podemos esperar mais algum lançamento para 2019? No que a Lupa vai trabalhar até o fim do ano?

MB: A gente está com uma penca de material para lançar, mas eu ainda não posso dizer o que vai acontecer, se serão singles, o que serão. Não posso contar porque nem eu sei ainda. Estamos indo para São Paulo para debater todas essas coisinhas, porém tem muita coisa gostosa e maravilhosa para a gente soltar nesse ano e em 2020!

OFF: Na outra entrevista, você comentou sobre o novo álbum começar a ser gravado no ano que vem. O que vocês querem trazer de diferente nesse novo disco? O que vocês querem manter, dar continuidade do Lupercália e no que vocês querem diferenciar?

MB: Eu gostaria muito de te responder essa pergunta (risos), mas não tenho a menor ideia de como vamos fazer e, honestamente, acho que assim vai ser o melhor jeito de criar esse novo álbum. Nessas quatro faixas que lançamos, nós mudamos completamente o jeito de fazer música, de gravar e de lançar. No passado, nós ficamos gravando durante um ano o primeiro CD e tentamos ser perfeitos, durante o processo repetimos, refizemos as coisas. Porém nessas últimas canções, de Oi : ) para frente, eu virei e falei “gente, caguei (risos). Não vamos fazer mais nada perfeito, não estou nem aí. Quando eu acabar de compor, vocês olhem, opinem e vamos entrar no estúdio para gravar na hora. Não está da maneira que a gente queria? F*da-se! Vai ser desse jeito, pois é como a gente está se sentindo”, e assim, nós eliminamos qualquer gostinho de dúvida que poderíamos ter. Desse jeito saíram as quatro canções que mais amamos até hoje, imagino que vamos continuar fazendo isso e acho que prefiro não construir um conceito e não planejar um estilo. Quanto menos a gente tem se preocupado com essa questão, mais tem dado certo, então penso que vamos seguir nesse esquema. Tipo eu estou agora no meio do plenário da Câmara do Deputados literalmente (risos), se bater inspiração, o que acontece toda hora, vou sair correndo e já vou arranjar um modo de escrever, hoje à noite talvez corra para o estúdio. É isso que está rolando nesses últimos tempos e está incrível, porque não sobra tempo para editar, se limitar, repensar e assim as canções estão ficando 100% com a nossa cara. Os lançamentos estão sendo muito mais empolgantes, pois estamos divulgando com o maior tesão na música, não lançamos se não acreditamos que ela é a melhor do mundo, é uma visão completamente ingênua, mas acredito que necessária. Por que você vai soltar ela se essa não é a sua canção favorita? Por que você vai escrever uma música se não pensa que essa vai ser a melhor do mundo? Tem que ter esse pensamento! Estamos apaixonados pelas coisas que estamos produzindo e estamos felizes para caramba! O que a gente quer é continuar com isso, imagino que esse é o modelo que temos que seguir.

OFF: Já que vocês ainda não têm um conceito formado para o novo álbum. Qual é a sua faixa favorita dessa nova era da Lupa?

MB: Eu falo que a última música sempre é a favorita, não tem jeito (risos)! Se você tivesse me perguntado dois meses atrás eu teria dito Bixinho e antes disso seria E Se Não Der Pra Esperar?, pois a gente muda, é assim. A gente muda de semana para semana, então quanto mais rápido conseguirmos produzir e lançar esses materiais, quanto mais a gente suar, quanto menos filtrado for esse processo, mais vamos nos identificar nisso e vamos ficar muito mais contentes. Imagino que o álbum inteiro vai ser feito nesse perfil. Se pudesse, lançaria o CD inteiro como single e depois compilava, porque estou me divertindo tanto com isso, estou amando esse método. É a primeira vez na nossa vida que estamos lançando singles dessa maneira, se permitissem, faria isso com o disco inteiro.

OFF: Acompanhando vocês, eu não pude deixar de reparar que a Lupa tem fãs muito engajados nas redes sociais e que vocês respondem, interagem bem com eles. Como é essa relação da Lupa com os fãs?  

MB: É uma delícia! Geralmente, a galera acha fofo que respondemos todos e pensa que dá o maior trabalho, mas na realidade é muito legal! Me divirto verdadeiramente escrevendo as m*rdas que posto nas redes da Lupa. Os nossos fãs são muito legais, são muito engraçados, é gente de todo o Brasil falando cada um de um jeito com umas expressões diferentes. Nós vamos incorporando, tudo virou inspiração, se tornou um jeito de nos alimentarmos e fazer cada vez crescer mais. A relação com os fãs da Lupa é uma delícia, pois é aquilo que comentei lá no começo é baseada no amor e eles reconhecem isso, nós enxergamos isso nisso tudo, então é um relacionamento muito gostoso. É se ajudar, se apoiar, tem um pessoal que passa o dia inteiro espalhando Lupa para todo mundo, escreve pelo colégio, escreve em todos os quadros-negros da faculdade “ouça a banda Lupa, imprime QR Code e sai espalhando pelos postes da cidade, e eu não conheço outras bandas que tenham isso. Nós temos fãs f*das para caramba! Somos extremamente abençoados por isso, é uma coisa que não tem como explicar, mensurar, é surreal mesmo!

OFF: Sempre terminamos as nossas entrevistas com um recado para o público. Você pode enviar uma mensagem para os fãs da Lupa?

MB: Para você ser humano que já faz parte dessa religião chamada Lupa continuemos espalhando a palavra do amor, conversem com os indivíduos que ainda não foram abençoados, ainda não conhecem a palavra e vamos seguir compartilhando ela. Para você que ainda não conhece a Lupa, meu amor, o que você está esperando?  Venha que você vai ser recebido com muito amor e muito carinho. E se preparem que a gente ainda vai anunciar turnê no fim do ano!


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Reportagem: Victória Lopes